Resenha Marie-Joseph Lagrange. Un biblista al servizio della Chiesa por Bernard Montagnes-P. Segandredo A.C

Resenha Seganfredo AC-Marie-Joseph Lagrange.

Un biblista al servizio della Chiesa por Bernard Montagnes

 

MONTAGNES. Bernard. Marie-Joseph Lagrange. Un biblista al servizio della Chiesa. Coleção Domenicani – 28. Tradução de Colette Orard e Paola Simone. Edizioni Studio Domenicano, Bologna, 2007, 672 pág.. ISBN 978-88-7094-627-4 (Original: Marie-Joseph Lagrange. Une biographie critique. Les Éditions du Cerf, Paris, 2004).

 

Muito me alegrei ao tomar conhecimento da tradução italiana do original francês da biografia crítica de Marie-Joseph Lagrange, O.P., que pode ser considerado, junto com Richard Simon (1638-1722), o pai da crítica  bíblica na  Igreja Católica, isto é, da exegese que lança mão do uso das ciências bíblicas. A autoria do livro é de Bernard Montagnes, doutor em teologia e historiador, o qual trabalhou assiduamente para recolher todos os documentos históricos úteis ao processo de beatificação do padre Lagrange tornando-se, assim, um dos maiores conhecedores de sua vida. Como diz o título original francês, trata-se não de uma obra com objetivos edificantes, mas de uma biografia crítica. Tratando-se do padre Lagrange, é justificada uma resenha em uma revista de teologia, especialmente neste número bíblico, tendo em vista a sua importância como pioneiro no estudo crítico da Bíblia. Percorrer a sua trajetória equivale a entender melhor o difícil caminho que os estudos bíblicos percorreram no interior da Igreja Católica a partir do final do século XIX. Nesse sentido, gostaria de assinalar também outra obra recém publicada, a qual, junto com esta, poderá ser muito útil para quem queira conhecer melhor a trajetória recente da exegese crítica católica. Refiro-me a GILBERT, Maurice. Il Pontifício Istituto Bíblico. Cento anni di storia (1909-2009).  Editrice Pontifício  Istituto Bíblico, Roma,  488 pág..  ISBN 488.978-88-7653-641-0.

A obra é dividida em 16 capítulos que percorrem a vida do padre Lagrange. Ao final de cada capítulo o autor apresenta os documentos principais – normalmente extratos – que corroboram quanto foi desenvolvido ao longo do capítulo. São apresentados na língua original e, assim, normalmente estão em francês, alguns em latim e italiano.

O primeiro capítulo trata das origens e da formação do padre Lagrange (1855- 1890), desde seu nascimento, em 7 de março de 1855, em Bourg-em-Bresse, na província de Ain, na França, quando recebeu o nome de Albert. Após os estudos no seminário de Autun, vieram os estudos e o doutoramento em jurisprudência, em Paris. Albert Lagrange aos poucos foi descobrindo sua vocação dominicana e para ela preparou-se durante um ano no seminário de Issy. Desse ano resultaram importantes amizades, que serão permanentes, tais como com Pierre Batiffol, que se tornará um especialista nas origens do cristianismo. Tendo entrado na Ordem Dominicana, professou os votos religiosos no ano de 1880, em Saint-Maximin,  na França, recebendo o nome de Frei Marie-Joseph. Nesse mesmo ano os religiosos foram expulsos  da França, de modo que os estudos teológicos foram realizados em Salamanca, na  Espanha. Alguns anos após a ordenação sacerdotal (1883), a Província dominicana francesa de Toulouse, a qual pertencia padre Lagrange, enviou-o a estudar línguas orientais junto à Universidade de Viena.

O segundo capítulo trata da fundação da obra da vida de padre Lagrange, isto é, a École Biblique, em Jerusalém, acontecida em 1890. No local, junto ao possível lugar do martírio de Santo Estevão, já tinha chegado precedentemente o dominicano Matthieu Lecomte. É ali, em situações precárias, que surgirá um dos centros por excelência das ciências bíblicas e arqueológicas. A intuição de padre Lagrange era a de juntar o “documento ao monumento”, isto é, os estudos bíblicos e arqueológicos, ao serviço da Palavra de Deus. Mas, a convicção que se cimentará irá além. Para o padre Lagrange a ciência bíblica precisava desembocar na teologia bíblica, e a isto ele nunca renunciará.

O terceiro capítulo trata da primeira década da École Biblique. Além dos estudos acadêmicos normais, a escola promove conferências públicas e são fundadas a Revue Biblique (1892) e a projetada a coleção Études Bibliques, as quais, passados mais de cem anos, continuam entre os mais prestigiosos instrumentos da ciência bíblica.

O quarto capítulo apresenta as primeiras experiências da censura romana que pare Lagrange sofrerá, já a partir dos escritos de 1891-1893, e que continuará literalmente até o final de sua vida. De fato, todas as possíveis publicações deviam ser enviadas a Roma, à Casa Geral dos Dominicanos, à qual o Convento de Saint-Étienne e a École Biblique respondiam diretamente, para serem analisadas por censores nomeados pelo Mestre da Ordem (superior geral dos domenicanos).

O quinto capítulo apresenta especialmente a presença de padre Lagrange no Congresso de Friburgo, em 1897, onde apresentará a suas convicções em relação ao estudo crítico da Bíblia. A competência do padre Lagrange e o nome da École Biblique consolidavam-se. Prova disso é a confiança que o Papa Leão XIII manifestará, convidando padre Lagrange para consultor da Pontifícia Comissão Bíblica, constituída em 1902. O Papa planejava tornar a Revue Biblique o órgão oficial da Pontifícia Comissão Bíblica e tinha planos para a fundação do Pontifício Instituto Bíblico, contando com a presença do padre Lagrange. Sua morte, ocorrida em 20 de julho de 1903, mudou o rumo da questão. Padre Lagrange recordará sempre esse período para os estudos bíblicos, que foram especialmente encorajados sob o pontificado de Leão XIII, contando com o secretário de estado, cardeal Rampolla, como um dos seus melhores de sua vida. De fato, nesse pontificado foi publicado o primeiro documento importante do magistério romano dos tempos modernos sobre a interpretação da Sagrada Escritura,  isto é, a encíclica Providentissimus Deus, em 1893.

O capítulo sexto trata das conferências proferidas por padre Lagrange no Institut catholique de Toulouse, em 1902, pelo convite do reitor Pierre Batiffol, que resultaram na publicação de La Méthode historique, surtout à propos de l’Ancien Testament, em 1903. Este escrito, onde padre Lagrange apresentava os princípios do método histórico crítico aplicado ao estudo da Sagrada Escritura, provocou reações fortíssimas contra ele. É especialmente a partir desse momento que padre Lagrange deverá sofrer para desbravar os estudos científicos da Bíblia na Igreja Católica. Sobre as reações, a mais forte será a do jesuíta belga Alphonse Delattre, que nesta e em outras ocasiões escreverá publicamente contra o método do padre Lagrange. O nosso padre quisera ter respondido para esclarecer a questão, mas em todas as vezes foi impedido pelo Mestre da Ordem, bem porque este sabia que o novo pontífice, Pio X, concordava com a manifestação de Delattre. Padre Lagrange admirava-se, todavia, com a força das reações. De fato, em La Méthode historique não tinha expressado princípios diferentes daqueles que vinha expondo há mais de dez anos na Revue Biblique. Além disso, em certo sentido, padre Lagrange encontrava-se entre “a cruz e a espada”: de uma parte os conservadores reprovavam o seu método, de outra era reprovado por radicais como Alfred Loysi, dos quais ele tinha tomado distância e criticado. De fato, distante do racionalismo, padre Lagrange inquietava-se diante da urgência das questões bíblicas que precisavam de uma resposta científica, sem renunciar nem em um milímetro ao seu caráter inspirado. Ele sonhava com católicos extremamente competentes em matéria de ciência bíblica, justamente para ir além da simples apologética. Ele queria poder “lutar com as mesmas armas do inimigo”, isto é, a competência científica, e isto como um serviço à Igreja e para o bem dos seus fiéis.

A partir das conferências em Toulouse, os escritos de padre Lagrange conhecerão forte censura. O capítulo sétimo trata dos escritos que foram proibidos de serem publicados entre os anos de 1904 e 1907, especialmente o comentário ao livrodo Gênesis, com o qual padre Lagrange quisera inaugurar a coleção Études Bibliques  (1). De fato, ele nunca conseguirá publicar este comentário. A morte o colherá, em 1938, com mais de 80 anos de idade, enquanto recomeçara a trabalhar neste comentário, em vista da publicação. E assim, ao escrever, padre Lagrange já sabia que talvez seu escrito não poderia ser dado ao público, de modo que a sua sensação era da de talvez estar escrevendo algo que iria juntar-se ao seu “cemitério de escritos”. Mas ele não  se deixava abater, mesmo se os tempos vindouros ter-se-iam demonstrado terríveis.

O capitulo oitavo apresenta os anos talvez mais difíceis vividos pelo padre Lagrange, entre 1907 e 1912. Em 1907, de fato, Pio X publicará o decreto Lamentabili e a encíclica Pascendi, documentos magisteriais que condenaram formalmente o modernismo. A Revue Biblique deu sua adesão a estes pronunciamentos. Todavia, após o próprio Pontífice ter vetado a publicação do seu comentário ao Gênesis, padre Lagrange, após tantos anos de estudo do Antigo Testamento, ao invés de capitular, corajosamente seguiu em frente, mas passando ao estudo do Novo Testamento. É assim que desde 1908 ele passa a comentar o evangelho de Marcos, que será publicado em 1911. Todavia, as suspeitas das autoridades da Igreja sobre ele continuam. Em 1912 os seus principais livros foram desaconselhados publicamente pela Sagrada Congregação Concistorial (atual Congregação dos Bispos). Esta será a maior condenação recebida na vida pelo padre Lagrange, que então imediatamente escreverá ao próprio Papa, declarando sua absoluta obediência. De fato, o desejo sincero dele era o de servir a  causa da Igreja. Se esta, na pessoa do Pontífice, lhe indicasse um caminho diverso, ele o teria percorrido sem pestanejar. A atitude de padre Lagrange evitará posteriores medidas eclesiásticas contra a sua pessoa e que seus livros tivessem sido colocados no Índice. Porém, não obstante sua plena disponibilidade, não lhe foi pedido nem de abandonar os estudos bíblicos, nem o fechamento da École Biblique ou o encerramento da Revue Biblique. Numa atitude de prudência, também pensando no bem da École, com o consenso do Mestre da Ordem, padre Lagrange retirar-se-á para Paris, onde permanecerá pelo período entre setembro de 1912 e julho de 1913. Esta etapa é narrada no capítulo nono. Durante o período parisiense, padre Lagrange decide não continuar a comentar os evangelhos até que as suspeitas sobre a ortodoxia do seu comentário a Marcos perdurassem. De fato, o comentário a Lucas será publicado somente em 1921. Nesse período, além de estudos arqueológicos (no Louvre) e históricos, decide passar a comentar as cartas de Paulo. Nesse sentido podemos perceber a fibra e a determinação, aliadas à obediência, de padre Lagrange. Se lhe reprovam os estudos do AT, passa aos evangelhos; se há suspeitas sobre esses, passa a Paulo. Comenta o autor do livro que, caso houvesse a necessidade, talvez tivesse posteriormente passado ao Apocalipse. Não é uma atitude de teimosia. Ele estava convencido de assim servir a causa da Igreja em um campo onde havia urgência em fazê-lo. Mas, todo o clima de suspeitas em torno da “obsessão contra o modernismo” desanuviar-se-á diante da iminência da I Guerra Mundial, a partir de1914.

O capítulo décimo realiza uma parênteses para comentar a difícil relação da École Biblique entre os anos 1890 e 1914 com algumas congregações religiosas. Assim, com os franciscanos o problema será em relação aos lugares santos, visto que a arqueologia é uma ciência que pode tanto derrubar possíveis lendas como confirmar o dado tradicional. Com os assuncionistas, que em princípio enviavam seus estudantes para a École Biblique, haverá um claro distanciamento diante da clara decisão da Direção Geral destes em favor de uma atitude conservadora no tocante aos estudos bíblicos, contrária à crítica bíblica. Mas, os maiores dissabores para padre Lagrange virão da relação com alguns jesuítas, particularmente o Pe. Leopoldo Fonck, primeiro reitor do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, fundado em 1909 (estamos, portanto, no ano centenário desta benemérita instituição!). Este, para cuja fundação Leão XIII quisera contar com o padre Lagrange, diante dos eventos sucessivos foi confiado  por Pio X aos jesuítas, especialmente na pessoa do Pe. Fonck, homem irascível que, em  uma atitude pouco cristã, assumiu uma postura desejosa de destruir padre Lagrange e  sua obra a todo o custo. Assim, o nosso padre muito terá que sofrer, sobretudo quanto Pe. Fonck insistirá em abrir uma sucursal do Instituto na Palestina. Mas, a I Guerra trará suas consequências, de modo que tal sucursal será aberta somente nos anos de 1927, em um clima diferente. É importante, todavia, sublinhar que nem todos os jesuítas alinhavam-se em posturas conservadoras. Assim, se houveram os Delattre e os Fonck, padre Lagrange encontrou grande amigos jesuítas como, por exemplo, os padres Albert Condamim, coladorador da Revue Biblique e de Études Bibliques e igualmente vítima da censura romana, e Léonce de Grandmaison.

O capítulo décimo primeiro traz o sugestivo título: “Durante a guerra a École Biblique reduzida somente ao padre Lagrange (1914-1918)”. Nesse período, novamente na França, visto que a Turquia, sob a qual Jerusalém encontrava-se, expulsou de lá todos os franceses, padre Lagrange dedica-se a escrever artigos patrióticos, exerce, segundo os numerosos convites, seu ministério de pregador (é um dominicano, afinal!)  e dedica-se, não obstante a falta da biblioteca da École, a comentar a carta aos Romanos (1916) e a carta aos Gálatas (1918). Nesses anos também terá que sofrer pela sua saúde. Ao final do capítulo, é significativo o Documento n° 48, reportado nas paginas 414-416, que relata o encontro, em Roma, antes do retorno a Jerusalém, entre o padre Lagrange e o cardeal Van Rossun, presidente da Pontifícia Comissão Bíblica, em 4 de outubro de 1918. Para alinhar-se à postura da Santa Sé padre Lagrange e a École Biblique deveriam assumir a linha conservadora em estudos bíblicos. O nosso padre estava disposto sim à obediência e, se fora o caso, teria abandonado os estudos bíblicos, mas, não podiam ir contra a sua consciência. Mesmo suspeito, embora não impedido de continuar, ele continua trabalhando, na esperança de dias melhores. A história dar-lhe-á razão, mesmo se após a sua morte (2).

O capítulo décimo segundo apresenta a École Biblique nos anos entre 1919 e 1925. Esta, apesar da I Guerra, durante o conflito bélico será admiravelmente preservada pelos frades conversos que, pela nacionalidade suíça, puderam permanecer nela. As suspeitas sobre padre Lagrange e a École, porém, continuaram. A novidade, porém, está na postura diferente do novo Mestre da Ordem. Os dois Mestres anteriores, Frühwirth e Cormier, embora em um clima fraterno e de confiança em relação ao padre Lagrange, não assumiram uma atitude positiva de defesa deste diante das autoridades romanas. Diversamente, Ludwig Theissling apoiará decididamente a École e o padre Lagrange, e assim seus sucessores Paredes e, especialmente, Gillet.

Todavia, passaram os anos também para o padre Lagrange. O capítulo décimo terceiro (1925-1935) apresenta os anos nos quais ele passa a direção da École para os seus discípulos. De fato, em 1925 o nosso padre é um septuagenário. Assim, a direção da École Biblique e da Revue Biblique passaram para o assiriólogo dominicano Paul Dhorme. Não por issoa obra intelectual do padre Lagrange terminou. Ele, que em 1921 publicara o comentário a Lucas, em 1923 publicou o comentário a Mateus e, em 1925, ao evangelhode João. Padre Lagrange pensava ter recitado o seu Nunc dimittis com o comentário a João (cf. p. 459), mas, em 1926 publicará ainda uma Sinopse grega, seguida por algumas obras dentro de um projeto de Introduction à l’étude du Nouveau Testament. Deste projeto serão publicados em 1933 uma História do Cânon do NT, em 1935 uma Crítica textual em colaboração com o Pe. Lyonnet e, em 1937, um estudo sobre as religiões mistéricas. Além desses, em 1928 padre Lagrange publicou um livro em homenagem a Jesus Cristo, uma espécie de “vida de Jesus”, a qual porém ele planejava não como uma obra puramente científica, mas para a edificação do povo cristão. A publicação de L’Évangile de Jésus-Christ conheceu um sucesso que nenhuma oura obra do padre Lagrange tinha conhecido. Não obstante, dores profundas o aguardavam, especialmente quando, no ano acadêmico 1930-1931, Paul Dhorme deixará a École, a Ordem e a Igreja (falecerá em 1966, reconciliado com a Igreja). Apesar da ferida dolorosa, foi uma ocasião para retornar as fontes da École Biblique, que talvez, com Dhorme, estivera em uma linha de um orientalismo não suficientemente temperado com a teologia e a espiritualidade. É assim que encontramos padre Lagrange, com 76 anos, novamente diretor da École Biblique.

O capítulo décimo quarto, intitulado “Os frutos do outono (1935-1938)”, tratam dos últimos anos da vida do padre Lagrange. Em 1935 ele celebrou seus 80 anos (em 1933 celebrara o jubileu sacerdotal). Homenagens de diferentes partes do mundo chegaram ao valoroso ancião. O exegeta de Lião, Joseph Chaine, ex-aluno da École Biblique, promoveu a publicação de um volume coletivo intitulado L’Œuvre exégétique et historique du P. Lagrange. Padre Gillet, Mestre da Ordem, uniu-se ao coro dos homenageantes declarando a École Biblique “a jóia da Ordem Dominicana”. Mas, o ocaso aproximava-se e, em vista da saúde, em 6 de outubro de 1935 padre Lagrange, depois de mais de 45 anos, deixou definitivamente Jerusalém e retirou-se para o convento francês que o recebera como noviço, isto é, Saint-Maximin. Neste convento o biblista ancião, apesar da saúde precária, não deixará de estudar e de edificar os noviços e estudantes dominicanos, com o seu exemplo de autêntico filho de São Domingos. Terá a oportunidade também de aceitar diversos convites para conferências e retiros. É admirável vê-lo continuar escrevendo artigos e recensões. Como “canto do cisne”, na esperança de estar vivendo tempos diferentes, recolocou-se ao trabalho em vista da publicação do comentário ao livro do Gênesis, impedido em 1907. Como fruto desse esforço e como antecipação, será publicado na Revue Biblique o artigo L’authenticité mosaïque de la Genèse, em abril de 1938, quando o autor já tinha alcançado a “Jerusalém celeste” há quase um mês. Os problemas de padre Lagrange com a censura, dentro da Ordem e na Igreja, por incrível que possa parecer, perduraram até o final de sua vida. De fato, foi impedido de publicar na Revue Biblique de janeiro de 1938 uma recensão de 10 páginas à obra L’Évolution religieuse d’Israël, de Edouard Dhorme, o antigo diretor da École Biblique. Na manhã de 10 de março de 1938, após uma noite onde quem acompanhava o ancião em sua doença final o escutou pronunciar “Jerusalém… Jerusalém…”, padre Lagrange “apagou-se lenta e docemente, circundado pelos seus coirmãos, ao canto da Salve Regina, segundo o hábito dominicano” (cf. p. 536).

O capítulo décimo quinto, após narrar o sepultamente, em um lugar de destaque do cemitério do convento de Saint-Maximin, narra a volta dos restos mortais do padre Lagrange para Jerusalém, em 1967, onde repousam no centro do coro da Basílica de Saint-Étienne, adjacente à École Biblique. Nesse mesmo capítulo é apresentado seu testamento, onde ele afirma ter sempre trabalhado em reta intenção e assim querer morrer, como filho da Igreja e de São Domingos. Por fim, o capítulo final apresenta, em síntese, o perfil humano e espiritual de padre Lagrange, procurando destacar suas características físicas, a herança humana e espiritual recebida da família, suas características como estudioso, crente e dominicano. O capítulo encerra-se com a apresentação da espiritualidade do nosso padre, revelada especialmente pelo segundo caderno do seu diário espiritual (1896-1932), encontrado por acaso, em Jerusalém, em 1995, o qual veio unir-se ao primeiro caderno, já conhecido, dos anos 1889-1995. O último documento apresentado no livro (n° 70, cf. págs. 614-616) apresenta, em francês, o elogio de padre Lagrange, por parte do Capítulo Geral da Ordem dos Pregadores, reunido em Roma. Seguem, entre as páginas 617 e 643, as fontes e a bibliografia consultadas para a realização da presente biografia crítica. Seu primeiro biógrafo, em sinal da estima que os havia unido, foi o arqueólogo dominicano Louis-Hugues Vincent, que dedicou-se a cultivar à memória de seu mestre.

A obra do dominicano padre Lagrange em prol do estudo científico da Sagrada Escritura, vivida como filho da Igreja e como um serviço à missão desta, por si só é admirável, seja pela perseverança na adversidade seja pelos frutos que produziu e continua a produzir. Mas, percorrendo as centenas de cartas enviadas aos seus superiores e amigos, onde, especialmente nestas últimas, onde pelo caráter confidencial poderiam transparecer palavras de revolta ou de amargura, encontramos, ao invés, o núcleo que guiava padre Lagrange em sua obra, e é sobretudo aqui que ele se torna verdadeiro modelo a ser apresentado aos exegetas e à pública veneração… e é por isso que o seu processo de beatificação foi iniciado em 1987, pela diocese francesa de Fréjus-Toulon. Nesse sentido, recordo uma conversa que tive com um dos meus professores, o biblista Joseph Agius, O.P., sobre o milagre requerido para a beatificação do padre Lagrange. Ele respondeu-me: “Seu milagre é a École Biblique!”.

Antônio César Seganfredo, cs

 

1 A coleção Études Bibliques, em vista dessas dificuldades, na verdade foi inaugurada em 1903 com a obra Études sur les religions sémitiques e o comentário Le Livre des Juges.

2 A abertura, por parte do magistério da Igreja ao estudo científico da Bíblia, dar-se-á apenas em 1943, com a publicação da encíclica de Pio XII Divino Afflante Spiritu. Padre Lagrange faleceu em 1938.

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